TI no Brasil – A catástrofe iminente ou a oportunidade da contrainteligência

O Brasil pode tornar-se irremediavelmente colonizado se não houver, por parte dos governantes, mudança de política e atitude em relação à nossa estratégia tecnológica para o mundo de hoje. É o próprio país quem está se algemando virtualmente. Ness...

Thursday, 19 de September de 2013
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O Brasil pode tornar-se irremediavelmente colonizado se não houver, por parte dos governantes, mudança de política e atitude em relação à nossa estratégia tecnológica para o mundo de hoje. É o próprio país quem está se algemando virtualmente. Nessa linha, as próximas gerações já estarão colonizadas.

Devido a internet, estudos dizem que estamos no máximo a cinco contatos de quem quisermos nos aproximar. Da Dilma estou a três contatos. Dizem que ela só ouve quem é muito próximo dela, e ainda assim com ressalvas, espero que não seja verdade. Este texto não é direcionado aos mal intencionados no governo ou aos lobistas, mas sim aos que defendem a soberania do país onde eu nasci, aos que defendem melhorias na educação, aumento da competição e o crescimento baseado em competência, da nossa indústria de TI. O objetivo deste texto é sensibilizar quem está mais próximo de Dilma Rousseff para alertá-la de um perigo ameaçador e de uma grande oportunidade de reversão deste quadro.

Programadores não geram voto, mas podem enriquecer profundamente um país

Vejo amigos meus deixarem o Brasil por encontrarem oportunidades em TI melhores fora do Brasil ou trabalharem aqui para grandes multinacionais contribuindo para que consumamos seus produtos. Estes programadores não encontram oportunidades à altura da sua capacidade na indústria de TI local, nem encontram incentivos do governo brasileiro para empreenderem o que sabem em TI. São parte dos poucos que sabem muito em TI. Impressiona ouvi-los. Aprende-se muito, mas muito mesmo com esses garotos. Infelizmente aqueles que decidem no governo não os ouvem. Como são poucos os programadores, fica a impressão de que eles não têm importância. Não se capitaliza muitos votos com eles. No entanto, os Estados Unidos sabem o quanto é importante os criadores de algorítimos e os empreendedores em TI. Se Bill Gates tivesse nascido aqui, seria possível imaginar que ele também teria saído do Brasil para conseguir empreender. Os Estados Unidos, principalmente, sabem como criar e defender sua indústria de TI em detrimento das de outros países.

Em 2003, com a chegada do PT ao governo do Brasil, meu sócio escreveu um artigo chamado Brasil, o país do Software Livre. Em 2013, passados 10 anos, houveram muitas críticas errôneas ao Software Livre e muito discurso positivo por parte do governo. Poucos entenderam sua importância estratégica. Hoje, com a espionagem escancarada, seria importante esse discurso virar ação. O governo decidir ele fazer sozinho sem movimentar uma indústria interna é perder justamente a oportunidade de desenvolver o Brasil nesta área. Holofotes direcionados para pouquíssimos setores internos do governo a um custo que compromete todo o desenvolvimento uma área estratégica para exportação, inovação e criação de riquezas.

Investimos nosso dinheiro na indústria de TI dos outros, para eles nos espionarem

O governo sabe e autoriza a entrega de seus dados à empresas de software proprietário. Alguns podem até se usar de várias desculpas para os aceites destes contratos, mas está lá conforme mostram os slides da apresentação do sociólogo Dr. Sergio Amadeu. http://www.slideshare.net/sergioamadeu/vc-sabe-quem-invade-seu-computador: bilhões são gastos na aquisição de licenças de uso de tecnologia da informação de multinacionais, sem o direito de absorvê-las. Entre inúmeros argumentos, está a falsa sensação de segurança.

Em uma guerra, nossos computadores serão desligados remotamente

Claro que segurança não se resume apenas à software, mas de que adiantará a melhor criptografia do mundo, se os dados forem criptografados sob sistema operacional proprietário, talvez intencionalmente comprometido? De que adiantará proteger dados sensíveis em um banco de dados proprietário, mantido por empresa de outro país com interesses comerciais nas nossas riquezas? De que adiantará comprar aviões, se não tivermos acesso ao código fonte embarcado e sabe-se lá o quê mais de engenharia para ter certeza de que não conseguirão derrubá-lo com um “enter remoto”?

Podem até existir software proprietário seguro, mas o governo jamais poderá ter certeza absoluta ou mesmo confiar nesta segurança. Não é correto afirmar que o Software Livre é seguro apenas porque possui código fonte aberto. Possibilita a segurança porque permite auditoria do código. No software proprietário a auditoria é impraticável. No Software Livre a auditabilidade, se incentivada e comprada pelo Governo, impulsionaria a autonomia tecnológica, desenvolveria toda uma área de serviços, programadores, criptógrafos, hackers, engenheiros, etc. Por exemplo, entre várias alternativas, o Brasil poderia despontar rapidamente no contexto mundial de segurança em software se desde já começasse a auditar códigos de segurança contribuídos por empresas internacionais (que tenham interesse estratégico de espionagem) à software Livres. Dectados possíveis problemas, publicaria-se - ou não - e se pagaria para a mão de obra interna corrigi-las. Pagamento esse via contratação de empresas nacionais. Se criaria, até pela constância de detecções e correções, indiretamente toda uma indústria estratégica em TI de contraespionagem, em uma linha própria para os dias de hoje em que tudo está conectado. Quem duvida que grandes corporações possam ter contribuído com código malicioso, aos software livres, não tem ideia de como o Linux está crescendo em número de instalações em servidores, celulares, televisores e tablets no mundo. Já aos que pensam que, então, é melhor não usá-lo, deveria questionar o porquê de a China utilizá-lo tão massivamente no governo, ao invés de software proprietários de fabricantes de outros países.

A força do lobby e a fraqueza da carne

Apesar de muitos no governo se proclamarem a favor do Software Livre, a esmagadora maioria prefere ceder ao lobby e comprar bilhões em licenças de software proprietário controlados com mão de ferro. Quem paga o preço são todos os brasileiros. Jamais teremos inovação em TI via empreendedorismo para ser exportada ou consumida em grandes massas. Nos tornamos consumidores de acesso a tecnologia alheia, desenvolvendo-a e gerando empregos ricos no exterior. O discurso de geração de emprego aqui cai bem aos que desejam que esses bilhões desaguem em terras estrangeiras. Onde se cria mais riqueza em TI? Se cria no local de destino dos recursos. Já fomos colonizados fisicamente no passado, mas hoje esta colonização se estabelece no espaço virtual, onde quem detém o conhecimento das tecnologias aprisiona, ao mesmo tempo em que transmite uma falsa percepção de que o aprisionado detém o conhecimento da tecnologia que o encarcera. O financiamento da própria colonização é um imperdoável erro histórico. Não existe xenofobia em TI neste raciocínio. Vários códigos de software livres são de autoria de estrangeiros e muito bem vindos, pois são livremente absorvíveis também por nós aqui. Empresas privadas podem decidir por si mesmas quais tecnologias utilizar, mas a decisão do governo de quais tecnologias utilizar, condiciona o país inteiro à catástrofe ou ao desenvolvimento industrial competitivo.

O Governo dos Estados Unidos usa software chinês de infraestrutura?

O Brasil jamais vai ocupar um espaço na indústria de TI internacional se não investir fortemente em educação de software livre para o jovem, com o qual ele consegue estudar e aprender algorítimos codificados, para inclusive aprimorá-los. Temos que trocar o hábito de aderir a contratos de licença tecnológicos ditados por um regime negocial escravizante que favorece um país estrangeiro, pelo de escolher ou negociar contratos que nos permitirão o aprendizado e criação de inteligência em um mundo amplamente conectado e que ao mesmo tempo protejam a soberania brasileira.

O Brasil jamais crescerá em quantidade e qualidade de matemáticos, cientistas, engenheiros, estatísticos, físicos, programadores, empreendedores de tecnologia, se continuarmos a ser adestrados pelas mãos de indústrias externas de TI, dos software proprietários que são tratados contratual e industrialmente como caixas-pretas, incentivados e pagos pelo governo brasileiro. Desculpas não faltarão por parte dos burocratas para evitar tal revolução: adequação da lei 8666, cultura, compras em andamento, legado, “time-to-marketing”, viagens ao exterior, prêmios, força secreta do lobby, que virá de maneira ainda decisiva em sua luta pela demonização do Software Livre, em uma tentativa de fortalecer ainda mais o software proprietário. A China não acredita neste tipo de discurso. O presidente Barack Obama não utiliza software chinês, mas sim norte-americano. O governo americano aceita por lei o lobby, mas apoia ferrenhamente sua indústria interna.

No Brasil, nos últimos anos, algumas empresas de Software Livre morreram por falta de estratégia, busca de alternativas, etc., mas quantas não poderiam ter se tornado exportadoras se o governo invertesse o modus operandi: direcionando discursos bonitos para empresas de software proprietário e aquisição de serviços para estas empresas que atuam com software livre? Como a Cyclades, que poderia estar construindo roteadores no Brasil com Software Livre sem precisar embutir portas de fundo no hardware para a espionagem americana por força de uma lei deles chamada CALEA.

Nossa indústria proprietária de software também teria mais valor

Podemos até investir na nossa indústria proprietária de TI, mas de que adianta um software proprietário financeiro brasileiro, que terá dados sensíveis, rodando apenas em um  banco de dados proprietário internacional? Ou que só roda sob um sistema operacional também proprietário?

O preço de venda do futuro das nossas gerações, para o Brasil ficar rico

Será que contratos bilionários que foram fechados entre o governo e empresas multinacionais não teve uso de vantagem competitiva - de quem ganhou o contrato - através de informação extraída com espionagem remota? Além da Petrobras, será que a Embraer, a Vale, a Caixa Econômica Federal, Belo Monte, entre outras, estão sendo espionadas não só por americanos? O custo estratégico de comprarmos software proprietário externo, seja de Cuba ou da Rússia ou da China, não é somente pagar com bilhões para a espionagem de nossa pouca indústria. Este custo é muito pequeno perto do que pode estar por vir.

O custo estratégico disto será o de entregarmos um Brasil irremediavelmente colonizado aos nossos netos, tendo nós hoje a oportunidade de mudar o curso disto. Nossa fauna, flora e água poderão ser um dia motivo de guerra. O que aconteceria se com um “enter” fosse possível “desligar” o Brasil? O software livre é muito mais estratégico para a indústria de TI do Brasil e para os próprios brasileiros. Espero que a presidenta Dilma não venda nosso futuro.

Autor: Marcelo Marques Colaboração: Rodolfo Gobbi.

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